Continuidade


Deixei o tempo passar. E nunca mais o alcancei.
Ficou tudo pendente. Bagunçado. Catastrófico.
E eu precisei seguir assim mesmo. Ele não parou para que eu pudesse consertar o estrago. Sequer desacelerou.
Impávido, seguiu adiante, ignorando meu atraso. Nem olhou para trás.

E, por isso, agradeço.

Foi assim que eu entendi que o tempo não me pertence. Não está a meu serviço.
Cabe a mim acompanhá-lo.
É uma tarefa árdua, todavia.
Ele simplesmente marcha em seu próprio ritmo e ninguém consegue detê-lo.
Chega a parecer cruel em alguns momentos.
Mas, a verdade é que ele é sábio. Ele é perfeito.

Intervir no tempo certamente seria uma péssima ideia.
Uma vez parado, ele jamais teria chances contra a reconfortante possibilidade de prolongar um momento pela eternidade, adiando ou anulando sua sequência natural.
Uma brecha dessas seria a perdição.
Seria decretar o fim, em plena ilusão do para sempre.
Seria a morte da única lógica inquestionável.
Seria estagnar o próprio ciclo que comprova que a vida é plausível.

Comente!